Vida eterna como conhecimento de Deus, a suprema síntese de felicidade

Uma alternativa à cosmovisão materialista e ao paraíso antropocêntrico

A modernidade, com seus vários pilares, sobretudo o materialismo, passou a interpretar que uma visão constantemente voltada para a frente, para o mundo eterno, seria na verdade uma forma de escapismo ou ilusão, como diagnosticou Lewis em Cristianismo Puro e Simples. A tese materialista defendida pelo filósofo inglês Thomas Hobbes é de que o universo é corpóreo e tudo o que é real é material, e aquilo que não é material não é real. Trata-se justamente do problema apontado por Lewis. A “cosmovisão materialista” compreende que qualquer tipo de visão, satisfação ou esperança que não tenha como objeto algo material, é na verdade uma forma de escapismo, é algo ilusório e, em última análise, irreal.

Embora propagada e defendida principalmente no contexto não-eclesiástico, a “cosmovisão materialista” não deve ser menosprezada pela Igreja, no sentido de considerá-la um discurso inofensivo aos cristãos. Pelo contrário, esta “cosmovisão materialista” tem adentrado nos arraiais evangélicos e, como apontou Lewis em Cristianismo Puro e Simples, os cristãos deixaram de pensar amplamente no mundo vindouro. Ora, qual mundo tem, portanto, ocupado o pensamento de muitos cristãos, senão o mundo secular, material, o “universo corpóreo”, a “Cidade dos Homens”, citando Agostinho, onde os homens vivem pelos seus desejos e interesses, buscando prazeres materiais e passageiros?

O problema, na minha visão, pode ser ainda mais sutil e perigoso em alguns casos. O Dr. Michael Allen, em seu livro A Esperança do Céu, um resgate da visão beatífica, alerta para um perigo latente. A realidade pode parecer menos chocante do que a premissa materialista, de encarar uma esperança espiritual e eterna como escapismo ou ilusão, pois ele reafirma que há, de fato, em muitos cristãos, um sincero anseio pela eternidade. O problema apontado por Allen, portanto, não é a falta de anseio e esperança celestiais, mas é, na verdade, o fundamento e o alvo desta esperança. Michael Allen aponta que alguns cristãos não tem tido o próprio Deus como o alvo supremo de sua esperança celestial. É o que parece ser uma visão meramente utilitarista da eternidade, focada naquilo que se pode receber de proveitoso, mas não centrada naquilo que a Escritura aponta como a verdadeira vida eterna: conhecer a Deus. Lewis ilustra esta realidade ao dizer que a maioria de nós acha muito difícil desejar o “Céu” — exceto no sentido de que o “Céu” signifique reencontrar os nossos amigos que morreram.

Ambos os casos — seja a explícita “cosmovisão materialista”, que enxerga a esperança eterna como uma forma de escapismo, como ilusória e, em última análise, irreal, seja a esperança eterna não-teocêntrica, que deseja o céu em primeiro lugar por outros motivos que não o conhecimento de Deus — parecem ter uma raíz semelhante, que brota, certamente, no terreno do coração humano, centro de sua existência: o homem, instigado por Satanás, buscando satisfação naquilo que não é a sua fonte eterna de satisfação: o próprio Deus. Esta é a realidade do Éden: o homem buscando satisfação simplesmente naquilo que, aos seus olhos, parece ser bom, agradável e desejável, e não no próprio Deus e em seu relacionamento íntimo de amor e deleite com ele. Como apontado pelo Rev. Gilson Santos em seu artigo “Não é possível ter tudo”, no Coalizão pelo Evangelho, o ser humano, originalmente, tinha comunhão perfeita e constante com Deus, ele tinha tudo para deleitar-se eternamente no Senhor, mas “achou que obtendo o que não tinha seria completo, pleno, estaria satisfeito e inteiramente contente. Mas na realidade, ele tornou-se mais miserável, absurdamente incompleto, insuficiente, descontente, deplorável e patético”. O homem, feito por Deus e para o próprio Deus, como disse Agostinho em suas Confissões, buscando – em vão – encontrar descanso naquilo que não é Deus, sem saber, na verdade, que não encontrará descanso enquanto não descansar no próprio Deus.

Diante de um mundo que, por um lado, não deseja o céu por considerar isto escapismo, ilusório e irreal, e por outro lado, deseja um céu utilitarista e antropocêntrico, gostaria de propor a necessidade de um resgate de uma visão teorreferente e cristocêntrica, da esperança celestial, pautada em ideias de Allen, Calvino e Agostinho. Allen aponta para o livro do Apocalipse e afirma que esta revelação “não culmina apenas com a promessa dos novos céus e nova terra ou da Jerusalém celestial, mas com a visão de Deus, pois ‘eles verão a sua face’ (Ap 22.4)”. Não é equivocado ansiar por tudo que veremos e desfrutaremos nos novos céus e nova terra ou na Jerusalém celestial, mas o centro do argumento de Allen está no direcionamento para que o alvo principal de nossa esperança celestial eterna seja em ver a Deus, em conhecê-lo. É estar não mais no jardim, mas agora na cidade, mas não cometer o mesmo erro de nossos primeiros pais, não buscar satisfação última simplesmente naquilo que o jardim (ou a cidade) oferece, mas encontrar deleite e satisfação plena naquele que não mais passeará pelo jardim na viração do dia, mas que na verdade será o tabernáculo de Deus com os homens, Deus habitando com eles, eles sendo povos de Deus, e Deus mesmo estando com eles, na cidade, como ensina Apocalipse 21.

Calvino, ao tratar nas Institutas quanto à meditação da vida futura, faz uma série de perguntas retóricas que apontam para a necessidade de concentrarmos nossa visão na esperança eterna. “Se o céu é nossa pátria, o que é a terra senão um lugar de exílio? Se a migração deste mundo é a entrada na vida, o que é o mundo senão um sepulcro? Permanecer neste mundo o que é senão estar mergulhado na morte? Se ser libertado do corpo é ser lançado à perfeita liberdade, o que é o corpo senão um cárcere?”. Mas propositalmente, ele deixa o melhor para o final, em sua última e decisiva pergunta: “Se usufruir da presença de Deus é a suprema síntese de felicidade, não é lastimável carecer dela?”. A suma da meditação da vida futura, do anseio celestial eterno, é usufruir da presença de Deus e compreender isto como a suprema síntese de felicidade. Embora as vãs filosofias deste mundo tentem nos seduzir, insistimos em afirmar que almejamos uma pátria celestial, onde usufruiremos da presença de Deus e isto será para nós a suprema síntese de felicidade. Diante da verdade da Escritura (“E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste”), podemos e devemos desejar como Agostinho, em suas Confissões: “Conhecer-te, ó conhecedor de mim, conhecer-te tal como sou por ti conhecido”.

Por fim, gostaria de trazer um foco cristocêntrico para toda esta reflexão acerca de nosso anseio divino eterno, ou, como disse o Dr. Michael Allen, a natureza cristológica da visão beatífica. Meditamos que a vida eterna consiste em conhecer a Deus e que nosso propósito é satisfazer-nos neste mesmo Deus para sempre. Como, então, é possível a nós contemplar e conhecer este Deus? “Porque Deus, que disse: Das trevas resplandecerá a luz, ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo”, disse Paulo aos coríntios. Deus resplandeceu em nosso coração para que, iluminados por ele, possamos o conhecer, na face de Cristo. O mesmo Cristo que afirmou aos seus discípulos: “Quem me vê a mim vê o Pai”. Na face de Cristo, somos iluminados para o conhecimento da glória de Deus. Cristo é, como testifica a Escritura, a imagem do Deus invisível. Através de Cristo, e somente através dele, podemos conhecer verdadeiramente a Deus, e, consequentemente, desfrutar da vida eterna. Qualquer conhecimento de Deus à parte de Cristo não é um verdadeiro conhecimento de Deus.

A forma como veremos Deus no céu é uma questão de debate, mas gostaria de finalizar este texto com uma citação do Rev. Leonardo Oliveira, expondo o final do livro de Lucas, sobretudo os versículos 39 e 40 do capítulo 24: “Por que, para evidenciar que não é um fantasma, Cristo mostra suas chagas? Costumo perguntar: ‘Como você reconhecerá Jesus no céu?’. Quando chegarmos na glória eterna, com corpos completamente perfeitos, transformados em glória, sem nenhum defeito, nenhuma doença, você olhará para toda a glória, verá milhares e milhares, como diz Apocalipse, milhões de pessoas com o corpo sem defeito, plenos. Mas em um, e somente em um, você verá cicatrizes, buracos nas mãos e nos pés. Por isso Cristo mostrou as marcas: ‘Quero mostrar que fui eu que foi morto e ressuscitou, não é um dublê, não é uma outra pessoa fingindo ser eu’. Ou seja, uma cena que eles (discípulos) nunca viram: ‘Quem é que foi crucificado e voltou dos mortos?’. Ali estava a evidência. Mesmo com o corpo glorificado, aquelas chagas permanecem nas suas mãos, nos seus pés e no seu lado, como um lembrete eterno para a Igreja de que ele foi crucificado em nosso lugar, carrega as marcas. Nós seremos eternamente dependentes disso por toda a eternidade, para que se algum dia na glória eterna nos esquecermos: ‘Por que eu vim aqui mesmo?’, você olhar para o seu salvador, ver as marcas e dizer: ‘Eis ali o motivo. O preço foi pago, ele foi morto, para que eu viva e reine para sempre nele e com ele’. Quando Cristo mostra as suas chagas, ele mostra: ‘Olha, eu fiz o trabalho, fui eu que morri e agora eu ressuscitei’.”

Em outras palavras, Cristo exibe o seu próprio evangelho de maneira visível para os seus discípulos, ele se revela como o Deus redentor. Um dia, os eleitos verão Deus e serão lembrados eternamente do seu Evangelho. Este é o grande alvo de nossa esperança eterna: ver Deus, glorificá-lo e ter deleite nele para sempre. Certamente, como disse Calvino, usufruiremos da presença do Deus que deu sua vida por nós, o adoraremos eternamente pelo seu Evangelho e isto será para nós a suprema síntese de felicidade, para sempre!

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